domingo, 3 de agosto de 2014

O SEMEADOR DE ESPERANÇA. In Memoriam do Rev. José Faustino dos Santos, meu Pai.



A morte não respeita ninguém. Não respeita as nossas crianças; não respeita nossos bebês; Não respeita nossos jovens e adolescentes. A morte não respeita nossos velhos; nem nossos pais. A morte não respeita nossos amigos ou nossos entes queridos.
A morte não respeitou nem mesmo o Cristo. O Filho do Deus Vivo!
Ela está ai como que para nos lembrar na nossa condição humana.
Por toda a vida, a morte passeou ao meu redor. Já perdi para a morte  amigos queridos que se foram como que de repente, no auge de suas vidas produtivas. E não foram poucos!

Posso dizer como o poeta Cazuza: “eu vi a cara da morte e ela estava viva!” E hoje novamente sou confrontado com a dor que a morte provoca. Uma dor que dilacera a alma, e que me rouba a presença amada daquele que me fez nascer para a vida.
A morte teima em não respeitar ninguém, mesmo sabendo que já foi vencida.
Mas não é da morte que eu quero falar. Quero falar da ESPERANÇA.


Mas o que é a Esperança?

Faz algum tempo, numa conversa com um amigo sobre a vida e suas dificuldades ele me disse que o problema de muitos era a Esperança. Intrigado perguntei o porquê.
Ele passou a discorrer sobre o mito grego da criação da primeira mulher, Pandora.
De como Zeus, zangado com Prometeu (“o que pensa antes”) porque este havia roubado o “fogo dos deuses” e dado aos homens, encomendara a Hefesto que criasse a mulher.

Hefesto fez do barro da terra uma linda e perfeita escultura que apresentou aos deuses para que a dotassem de suas virtudes. Atena soprou em suas narinas o fôlego da vida; Afrodite a encheu de graça e sensualidade; Hermes lhe deu inteligência e sagacidade; e assim sucessivamente. Assim surgiu Pandora.

Zeus em seu ardil quis dá-la de presente a Prometeu (“o que pensa antes”), mas Prometeu imaginando tratar-se de uma armadilha não a aceitou. Então Zeus a entregou a Epimeteu (“o que pensa depois”). Epimeteu aceitou Pandora mesmo com as advertências de seu irmão Prometeu.

Mas ainda havia uma surpresa: como presente de casamento Zeus entregou a Pandora uma caixa, com a advertência de que a caixa nunca deveria ser aberta.
Claro que a caixa foi aberta na primeira oportunidade! Mas da caixa aberta saíram todos os males do mundo: a mentira, a inveja, a cobiça, as doenças, e tudo o mais que contaminaria a humanidade completando assim o plano de vingança de Zeus.
Porém ao perceber a loucura que tinha feito Epimeteu rapidamente fechou a caixa, e assim ainda ficou lá dentro a Esperança.

Como a Esperança ficou retida na caixa, completou meu amigo, a humanidade pode evoluir e se desenvolver. Pois apesar de todos os males, sem a Esperança, os homens puderam progredir. Porque a Esperança se tivesse sido libertada, contaminaria os homens com o conformismo e lhes tiraria o espírito empreendedor.
Fiquei então pensando... É! O mundo não tem Esperança mesmo! Ah! Então é isso! É como se Cristo tivesse metido a mão na caixa de Pandora. E lá de dentro arrancou para fora a Esperança. E nas mãos de Jesus a Esperança tornou-se uma grande virtude:

“o mistério que esteve oculto dos séculos, e das gerações; mas agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, a esperança da glória;” - Colossenses 1:26-27

E é na certeza desta Esperança que contemplo hoje não apenas a dor da morte do meu querido pai, mas a Esperança estampada no que foi a sua vida. Sempre confiante na Esperança do evangelho que viveu, bem que ele poderia ser chamado de ABRAÃO (“Avraham”), o Pai de Muitos”. Pois pelo Poder de Deus manifesto em sua existência, em sua vida, muitos puderam se achegar como Filhos do Pai Eterno, na Esperança da Redenção em Cristo Jesus.

E para a Honra e Glória de Jesus Cristo, e retendo na memória a mensagem pregada pelo Reverendo José Faustino dos Santos em seu ministério,
“retenhamos inabalável a confissão da nossa esperança, porque fiel é aquele que fez a promessa;” Hebreus 10:23
“Porque, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha outro maior por quem jurar, jurou por si mesmo,” Hebreus 6:13

Até breve, papai.
MARANATA!
Ora, vem, Senhor Jesus!
19/05/2014
Moacir

Do tupi mbo'a'su ira, “o que vem da dor” ou “o que faz doer”

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Y-Juca Pirama (aquele que será morto ou aquele que está próximo de morrer)

E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim.
Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós. 
Lucas 22:19-20


Neste feriadão de Corpus Christi assisti pela TV o pronunciamento de um bispo católico aqui em Recife que dizia da importância da celebração ritual de honrar o Corpo de Cristo que nos é dado a comer, como forma de participarmos de Sua Graça e Sacrifício. Falava o bispo de algo que eu já imaginava fazer parte do passado da teologia católica: a "transubstanciação"; o momento sublime em que a ostia deixa de ser um simples pão e se transforma no Corpo de Cristo, crença literalmente reforçada pelo bispo.

Teologias à parte, invadiu-me a mente a lembrança do poema indianista Y-Juca Pirama, do decantado poeta  maranhense Gonçalves Dias, publicado no seu livro "Últimos Cantos", entre os anos de 1848 a 1851.

De certo, o poeta não tinha em mente as semelhanças antropofágicas entre a crença nativa e o catolicismo romano, antes debruçava-se sobre a busca de uma identidade nacional tão solapada pelo colonialismo português, elegendo um "herói indígena" remanescente das lutas genocidas como emblema de uma ética nacional cavaleiresca. Cabe notar aqui que semelhanças (e existem outras tantas) entre tais crenças foram de pronto percebidas pelo colonizador e utilizadas com maestria pelo clero missionário como facilitador para adentrar o mundo e a alma indígena.

Crescido e educado no Maranhão, desde cedo tive contato com a obra de Gonçalves Dias, e particularmente com este poema, em que tive tantas vezes de resumir e analisar durante minha vida escolar. Engraçado como sendo um povo sem memória, aprendemos uma pronúncia ridiculamente aportuguesada para o título do poema. Só mais tarde, em contato estreito com línguas do tronco tupi pude rir de mim mesmo e de meus professores de literatura. 

Posteriormente, tive o privilégio de, por conta do meu trabalho, conviver diariamente com diversas culturas indígenas, e de ter animadas conversas ao pé de fogueiras com velhos índios, ou  remanescentes do contato com a sociedade nacional, ou os que ainda traziam na memória de sua história oral os relatos da época que suas etnias praticavam a antropofagia ritual. Pude assim perceber as diversas configurações em que tais acontecimentos se davam.

Voltando ao poema, a quem nunca o leu aconselho a leitura (http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/GoncalvesDias/IJucaPirama.htm). De todo modo, sem querer aqui fazer uma análise literária sobre a construção do mesmo, resumo que o poema está configurado como uma narrativa de um ancião Timbira, que nos moldes da transmissão oral do conhecimento, evoca a história do guerreiro Tupi e seu velho pai, como exemplo de bravura a ser imitada pela platéia “kurumin” presente e atenta.

Conta de um velho índio Tupi acompanhado de seu filho que erravam por aquelas paragens interioranas, fugidos do extermínio e genocídio português que assolavam os grupos Tupi do litoral. Cansado e faminto, o velho índio, já cego, é deixado a descansar sob um arvoredo, enquanto seu jovem filho parte em busca de alimento e abrigo. O jovem índio, longe do seu território tradicional, é então capturado por bravos guerreiros Timbira, e levado a aldeia inimiga, onde por costume, deverá ser devorado. 

O “script”, de conhecimento comum, não poderia ser evitado.  A honra de um guerreiro e a sua bravura e destemor frente ao inimigo eram neste momento postos à prova definitiva.  Esse processo poderia durar dias, ou mesmo meses, até que o dia para a matança ritual fosse determinado. Quando enfim, o guerreiro capturado seria amarrado pelos braços a dois mourões no centro da aldeia e após um ritual que envolvia provocações, insultos e vangloriações  de parte a parte, o bravo capturado seria morto com um golpe certeiro de borduna em sua nuca,  após o que seu corpo seria repartido entre todos e consumido. A crença comum era de que a bravura do guerreiro devorado seria partilhada por todos os presentes.

Diante de seus captores o jovem guerreiro Tupi entoa seu canto de morte:

"Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi: 
Sou filho das selvas, 
Nas selvas cresci; 
Guerreiros, descendo 
Da tribo tupi.
Da tribo pujante, 
Que agora anda errante 
Por fado inconstante, 
Guerreiros, nasci; 
Sou bravo, sou forte, 
Sou filho do Norte; 
Meu canto de morte, 
Guerreiros, ouvi..."

Mas em lágrimas menciona a figura do velho Pai que deixara sozinho na mata, propondo em juramento se fazer escravo dos Timbira em favor de salvar a vida do velho moribundo. Para surpresa de todos os guerreiros, o chefe Timbira manda soltar o prisioneiro, entendo seu choro e súplica como um ato de covardia do qual não o faria digno de ser devorado pelos bravos.

Os Timbira, perplexos, soltaram o prisioneiro, desdenhando de sua bravura. Humilhado, o jovem guerreiro retorna ao seu pai. O velho, já há muito tempo sozinho, abraçou ao filho querido, mas logo sentindo o cheiro da pintura corporal que adornava o filho, de pronto entendeu o que havia ocorrido. De certo, ninguém poderia escapar do aprisionamento inimigo sem ferimentos.

Ao indagar ao filho o ocorrido, ficou revoltado e envergonhado com a sua covardia, e impeli-o a retornar à aldeia Timbira. O velho índio, cego e frágil, levou o filho de volta aos Timbira. Diante dos guerreiros inimigos o velho pai devolve o seu amado filho ao sacrifício de honra. Os Timbira rejeitam a oferta, desdenhando mais uma vez da bravura Tupi. 

O velho pai, ao ouvir do choro entoado pelo filho passa a amaldiçoa-lo e o despreza diante de todos!
Neste momento o jovem Tupi, solta seu brado de guerra, e passa a pelejar bravamente com todos os guerreiros Timbira, fazendo tombar a muitos pela força de sua destreza em batalha. Um brado altivo partindo do chefe Timbira faz cessar o combate:

"- Basta! Clama o chefe dos Timbiras, 
- Basta, guerreiro ilustre! Assaz lutaste, 
E para o sacrifício é mister forças. -"

O jovem guerreiro cessa o combate cai nos braços do pai.

"O guerreiro parou, caiu nos braços 
Do velho pai, que o cinge contra o peito, 
Com lágrimas de júbilo bradando: 
"Este, sim, que é meu filho muito amado!
"E pois que o acho enfim, qual sempre o tive, 
"Corram livres as lágrimas que choro, 
"Estas lágrimas, sim, que não desonram"

A narrativa do ancião Timbira termina com a lição final de ética e honra a ser seguida pelos "kurumin":

"Um velho Timbira, coberto de glória, 
Guardou a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi! 
E à noite, nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Dizia prudente: - "Meninos, eu vi!
"Eu vi o brioso no largo terreiro 
Cantar prisioneiro 
Seu canto de morte, que nunca esqueci: 
Valente, como era, chorou sem ter pejo; 
Parece que o vejo, 
Que o tenho nest’hora diante de mi.
"Eu disse comigo: Que infâmia d’escravo! 
Pois não, era um bravo; 
Valente e brioso, como ele, não vi! 
E à fé que vos digo: parece-me encanto 
Que quem chorou tanto, 
Tivesse a coragem que tinha o Tupi!"
Assim o Timbira, coberto de glória, 
Guardava a memória 
Do moço guerreiro, do velho Tupi. 
E à noite nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Tornava prudente: "Meninos, eu vi"

O que me comove nesta história? Digo: a ética e a honra. Sem isso não nos é possível transitar neste mundo sem nos diferenciarmos. Este exemplo sempre me traz à memória o sacrifício de Jesus. Para nós, os que cremos, nos diz muito de Quem é Aquele que nos amou até a morte. E morte de cruz!

Jesus, em sua humanidade, e sabendo desde sempre qual seria o seu necessário destino (nosso Y-Juca Pirama), sentiu duramente o peso de manter-se íntegro ao propósito divino. Não foi sem dor que brandou em oração: "Pai, se possível passa de mim esse cálice"; e na cruz bradou em alto e bom som: "Deus meu, Deus meu... por que me desamparaste".

Felizmente, para nós, Ele resistiu bravamente ao seu destino! E hoje, comemos do Pão e bebemos do Cálice, não porque estes elementos alterem a sua natureza, mas "Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha." - I Corintios 11:26.

Essa é a nossa Esperança!










terça-feira, 28 de maio de 2013

Graça e perdão, por que não?


 "Sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus." Romanos 3:24

"e havendo riscado o escrito de dívida que havia contra nós nas suas ordenanças, o qual nos era contrário, removeu-o do meio de nós, cravando-o na cruz;"  Colossenses 2:14




 Você já deveu dinheiro a alguém? Ou um favor? Ou algo muito valioso? Então você conhece aquela sensação incômoda que se sente ao se aproximar dessa pessoa! É esquisito, não é?

Alguém que é seu amigo de verdade, mas que por uma razão circunstancial, no caso sua dívida pessoal com ela, provoca em você uma compulsão pelo distanciamento. Sempre que você a vê, ou ouvir falar nela, brota esta sensação esquisita que tanto nos angustia. Até que possamos saldar a dívida estaremos divididos em dois mundos: o desejo de se relacionar com a pessoa de quem você tanto gosta; e a sensação de que algo muito errado aconteceu entre vocês, e portanto, o relacionamento de outrora já não é mais o mesmo.

Ficamos com a certeza de que nosso o amigo ou amiga está sempre pensando em o quanto lhe devemos. Como humanos que somos, essa é uma certeza plausível e não temos como  raciocinar de outra forma. Não somos tão livre assim!

Tudo se baseia na convicção da dívida, na certeza dos impedimentos que ela traz, e na nossa incapacidade de crer que podemos ser a aceitos plenamente sem que a dívida seja por nós quitada.

Agora pense em Deus e nestes três pontos básicos da nossa estrutura mental (almática).

A certeza da dívida é algo que nos fustiga diuturnamente, sejamos ou não ligados à alguma convicção religiosa("religare"). Sublimamos, racionalizamos, jogamos para baixo do no nosso tapete psíquico, e cometemos o auto-engano de desacreditar até mesmo que ela exista; mas não tenho jeito! Uma hora qualquer sempre temos que encará-la.

Como então nossa dívida é impagável, vem a desconforto em relação àquele que por tantas vezes dizemos em palavras ser com o nosso melhor amigo. Tanto que nas horas, cada vez mais minutos, a sós com Ele, se instala um silêncio sepulcral, ou uma verborragia virtual da nossa parte, que apenas preenche os momentos dessa relação.

 Ficamos sempre com aquela sensação de que temos de algum modo que contribuir com nossos esforços para, se não pagar tudo, pelo menos possamos compensar um pouco nossa dívida impagável. Proliferam então os mecanismos de auto-engano, que nos levam às tentativas de burlar a dívida; às  esquisitices performáticas e ritualísticas compensatórias; aos aprisionamentos xamânicos da "religare"; até à auto-comiseração e oa adoecimento permanente da alma.

Não cremos que somos aceitos por Deus assim como somos. Não cremos no perdão unilateral. Fomos ao longo da vida construindo nossas relações baseadas em um sistema de escambo. E ninguém nos convence que Deus, pelo menos nesse aspecto, não seja tão humanos como nós mesmos. Deus tem que pensar de acordo com nossas categorias humanas!

Aqui está onde a Graça e o Perdão falham!!!

Não aceitamos algo assim tão gratuitamente. Deve ser alguma pegadinha cósmica! Essa história de morte na cruz não tem lógica alguma. A dívida é nossa, nós temos que pagá-la de algum jeito. Se o próprio "Criedor" a pagar por nós, nossa dívida só crescerá. Não. Essa lógica não satisfaz o meu senso de justiça!
De algum modo, mesmo os que cremos, continuamos a buscar uma maneira de satisfazer a nossa justiça-própria.

É justamente quando chegamos aqui que estaremos decaindo da Graça.


Pense nisso!

sábado, 16 de março de 2013

E a vida o quê é? Diga lá mermão...

"Faça uma lista dos sonhos que tinha,
e quantos deles deixou de sonhar."
A Lista - Oswaldo Montenegro

A existência nos impõe escolhas que se perdem no tempo. Algumas impetuosas, tempestivas; outras calculadas, pensadas, pesadas. Umas de perspectiva estreita; outras de uma amplidão e conexões imensuráveis, que nos levam a ainda outras tantas inimagináveis.

Seja como for, acabamos escravos do Tempo. Tempo que não volta; oportunidades que se vão pra sempre, ou se abrem em novas formas. No meio, fica a sensação de coisas não cumpridas, mal-resolvidas, mal-começadas ou mal-terminadas.

A ansiedade, o pânico, o medo e a insegurança, nos são companhia diária. Estabelecem-se limites, prazos, altura, largura e profundidade para a felicidade possível. E o Tempo avança! Não há controle sobre Ele e Seus efeitos: o corpo cobra um alto preço, e o espírito divaga entre o que é, o que seria, e o que ainda poderá ser possível.


Não há saída para essa encruzilhada. Não há com abortar o existir; ou como pular fora da vida pelo livre arbítrio. O suicida pode arbitrar a esse respeito, mas não é fruto de sua livre vontade o ato final. Temos que continuar até o dia determinado.

Uns se vão antes, "fora do combinado". Outros bem mais tarde, "dentro do combinado", como costumava  dizer o poeta sertanejo Rolando Boldrin.

Ninguém controla o Tempo. E acumula-se um vazio de significados, sonhos arquivados e projetos inconclusos. Até que chegue a hora de cada um, permanece a sensação desse vazio abismal. Não sabemos o tamanho do vazio da alma humana.

A vida como a conhecemos, atrelada ao Tempo/Espaço, é certamente a maior expressão de Sabedoria do Criador.

Só uma vida assim do jeito que é, pode nos conduzir ao aperfeiçoamento. Mas tudo isso só faz sentido na perspectiva da Eternidade. Por isso o alerta do Apóstolo Paulo:

"Se a nossa esperança em Cristo se resume apenas a esta vida, somos os mais infelizes dos homens."

Carpe diem!

sábado, 24 de março de 2012

Morrer dá pena!...


Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças,
 porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra nem projeto,
 nem conhecimento, nem sabedoria alguma 

Eclesiastes 9:10 




Ontem, Chico Anysio partiu para a dimensão dos espíritos. Que pena! Pelo menos para nós que ficaremos com a saudade do riso fácil, inteligente, sagaz e irônico.

Para ele, sigo a pista que ele mesmo deixou...

Em entrevista ao canal GNT que assisti ano passado, houve um momento que achei brilhante entre tantos: 

- Chico - perguntou a repórter que o entrevistava - você tem medo de morrer?

- Medo!... - respondeu. -  Medo não! Tenho pena! Isso mesmo... tenho pena de morrer... Pena de não brincar mais com meus netos e vê-los crescer... Pena de deixar de escrever outros livros que eu gostaria de escrever... De escrever aquela peça... aquele roteiro... Pena de deixar de criar...

Foi mais ou menos isso que ele respondeu, o que me deixou a pensar, e considerar o que há muito tempo li no Livro do Pregador transcrito em epígrafe. Sempre me inculcou esse vaticínio de cunho tão existencialista, e até determinista que se encontra por todo o Livro do Esclesiates.

Mas aí, com a resposta do Chico à difícil e inexorável pergunta com que sempre nos defrontamos, vislumbrei o significado do que diz o Pregador. Porque lá, na dimensão dos espíritos, todos os nosso projetos, planos, realizações, projeções, e tudo aquilo que chamamos de vida, e pelo que lutamos para a construção do que chamamos nós mesmos, lá tudo isso fica para trás.

Se há planos, se há projetos, se há realizações a serem alcançadas, essas já não terão semelhanças com as projeções humanas. Mas serão de outra natureza, assentadas em outro paradigma. Nada sabemos sobre o que seja espírito. Apenas especulamos, alguns postulam, outros projetam seus desejos para o além. Mas tudo não passa de uma imagem especular. Como escreveu o Apóstolo São Paulo ao coríntios:

Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido. 1 Coríntios 13:12 

Até lá, enquanto continuarmos nessa árdua jornada que é a vida, a existência; enquanto labutamos em construir, acumular, conhecer, estudar; enquanto o tempo escorre como areia entre nossos dedos; não deixemos de lado a Esperança. A Esperança que transcende para o além, para a dimensão dos espíritos.

Atentando para a advertência do Apóstolo que diz:

Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens. 1 Coríntios 15:19 

É aqui que o sapato aperta! Como disse em um post anterior: "o danado não é viver, o danado é morrer!"


Chico, fica aqui essa singela homenagem a você. Obrigado por todo o sorriso que você me proporcionou. Até breve!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O administrador infiel


E louvou aquele senhor ao injusto mordomo por haver procedido com sagacidade; porque os filhos deste mundo são mais sagazes para com a sua geração do que os filhos da luz. 
Eu vos digo ainda: Granjeai amigos por meio das riquezas da injustiça; para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. Lucas 16: 8,9.


Esta sempre foi para mim a parábola mais enigmática contada por Jesus. Já ouvi de tudo um pouco sobre o seu significado. Mas em todas as interpretações que ouvi, ou quase todas para ser mais justo, faltava uma perspectiva de eternidade, de significados espirituais inacessíveis sem a revelação de Deus, essencial para a compreensão dos ensinamentos de Jesus. Como no dizer de Paulo, apóstolo: "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. (I Coríntios 2:14)

Como imaginar Jesus dando tal conselho? Em outra tradução está dito: "... das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando estas vos faltarem, tenhais quem vos receba nos tabernáculos eternos."

Para início de conversa, se tal conselho tivesse aplicabilidade em nossa vida terrena cotidiana, teríamos que considerar alguns aspectos das relações humanas que não nos faria esperar uma reação de causa e efeito tão cartesiana assim. 

Quem não tem formada a convicção de que amigos são de caráter facilmente voláteis, principalmente quando tais relações se apoiam em circunstâncias favoráveis. Quantos de nós já não nos sentimos desamparados, quando de uma hora para outra nos faltou a abundância que atraía uma multidão de amigos?! É por esta razão que a criatividade humana cunhou centenas de adágios populares para definir uma amizade, do tipo: "amigo é..."

Emblemática é a narrativa do Livro de Jó! Quando sobre ele sobreveio o infortúnio, a miséria, a dor, o sofrimento, que socorro obteve dos seus "melhores amigos", ou pelo menos dos amigos que restaram, pois só aqueles quatro amigos se apresentaram? Criamos até a expressão "amigos de Jó", para significar o equivalente tupiniquim "amigo da onça".

Continuando, se considerarmos como um conselho, também cartesiano, com implicações de eternidade, estará configurada a possibilidade de um atalho para os tabernáculos eternos no qual o caminho não seria Jesus, como Ele já afirmara: "Eu Sou o Caminho, A Verdade, e a Vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim".

Vou transcrever abaixo todo o pequeno texto da parábola, até para que os que não a conhecem possam acompanhar melhor:

"Jesus disse aos seus discípulos: "O administrador de um homem rico foi acusado de estar desperdiçando os seus bens.

Então ele o chamou e lhe perguntou: ‘Que é isso que estou ouvindo a seu respeito? Preste contas da sua administração, porque você não pode continuar sendo o administrador’.

"O administrador disse a si mesmo: ‘Meu senhor está me despedindo. Que farei? Para cavar não tenho força, e tenho vergonha de mendigar...
Já sei o que vou fazer para que, quando perder o meu emprego aqui, as pessoas me recebam em suas casas’.
"Então chamou cada um dos devedores do seu senhor. Perguntou ao primeiro: ‘Quanto você deve ao meu senhor? ’
‘Cem potes de azeite’, respondeu ele. "O administrador lhe disse: ‘Tome a sua conta, sente-se depressa e escreva cinqüenta’.
"A seguir ele perguntou ao segundo: ‘E você, quanto deve? ’ ‘Cem tonéis de trigo’, respondeu ele. "Ele lhe disse: ‘Tome a sua conta e escreva oitenta’.
"O senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu astutamente. Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz.
Por isso, eu lhes digo: usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas.
"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.
Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas?
E se vocês não forem dignos de confiança em relação ao que é dos outros, quem lhes dará o que é de vocês?
"Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro".
Os fariseus, que amavam o dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam de Jesus.
Ele lhes disse: "Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus".
"A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele.
É mais fácil o céu e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço. 

Lucas 16:1-17" - (Nova Versão Internacional).

E agora, pensei? Não tem jeito! Vou cair na esparrela de repetir os enganos interpretativos, patinar patinar e não sair do lugar. A não ser que deixe Jesus falar por si mesmo! Ele é a "palavra encarnada" (ei, maranhenses, encarnada aqui não é "vermelha"!).

Alguns aspectos culturais, e portanto, religiosos, da palestina à época , também ajudam a entender o que está dito. Também compreender a metodologia da pedagogia de Jesus, pode ser de grande valia.

Uma vez indagado sobre por que falava por parábolas, Sua resposta foi: "A vocês foi dado o mistério do Reino de Deus, mas aos que estão fora tudo é dito por parábolas, a fim de que, ‘ainda que vejam, não percebam, ainda que ouçam, não entendam; de outro modo, poderiam converter-se e ser perdoados! ’" . Marcos 4:11-12 ". (Nova Versão Internacional). Numa clara alusão de que a Revelação do Reino de Deus é uma atitude soberana do próprio Deus.

Por isso, não é sem razão que os fariseus que ouviam Jesus contar a parábola do administrador infiel, o ridicularizavam. A zombaria era justificável para eles porque não entenderam a lógica de Jesus. Não fazia sentido! Que historinha mais boba era essa, afinal? - Devem ter pensado.

Senão vejamos:

Um homem muito rico nomeia uma administrador para cuidar dos seus bens. Afinal, de que forma ele poderia usufruir das suas riquezas se tivesse que tomar conta ele mesmo de todos os seus negócios. Embora muitos prefiram estar mergulhados nos afazeres de suas empresas a tal ponto de negligenciar sua própria vida, família, filhos, esposa, etc. Como certamente seria essa a condição de muitos dos fariseus ali presentes, que como afirma o texto "amavam o dinheiro". Portanto seriam filhos da lógica: "o seu, zela o seu dono"; ou, "é o olho do dono que engorda a boiada".

O senhorio, então recebe a informação de que está sendo ludibriado em seus negócios. Resolve fazer uma auditoria, pedindo contas do trabalho do seu gerente.

O gerente, fica apavorado! Foi pego de calças curtas! Imagina você: meia-idade; passou a vida fazendo aquilo; só sabe fazer isso; não trabalhou em mais nada! Vai ter que começar tudo do zero? Como? Ninguém mais vai contratá-lo depois dessa, afinal foi pego com "a boca na botija". Quem vai lhe confiar a gerência de qualquer outro negócio? Que fazer, então? Ser lavrador (cavar a terra), ou qualquer outro trabalho braçal? Não tem mais idade nem saúde pra isso. Mendigo? Não, certamente! Ainda lhe resta alguma dignidade, ou esperteza.

Claro! Sendo inteligente como é, afinal é gerente de uma grande fortuna, tem que haver um jeito!. E há!

Chama, então, todos os clientes da empresa e inicia uma grande renegociação de contratos. Pois se o objetivo do patrão é o lucro, este vai estar garantido. E qual é o pulo do gato?

Bom! Você leitor certamente já passou pela situação de ir fazer uma compra qualquer e descobrir que os preços dos produtos sofrem alterações de acordo com a forma de pagamento, não? Pois, é. A placa diz: 30% OFF. Mas aí você descobre que isso é para o preço à vista. No cartão de crédito o preço é outro. Mesmo que tal prática seja ilegal, segundo no Código de Defesa do Consumidor, a prática é essa.

Naquele tempo não era diferente. Os judeus, por conseguinte os fariseus árduos defensores da Lei de Moisés, eram proibidos de cobrar juros. Qual o truque? Majorar os preços, que foi o que tinha feito antes aquele administrador infiel. Essa era prática comum como forma de ludibriar a Lei. Por isso Jesus vez por outra referia-se à hipocrisia dos fariseus mais preocupados com a performance exterior que com o verdadeiro significado da Lei.

Feito isto, agora o gerente "matou dois coelhos com uma cajadada só!". Ficou de boa, com a clientela, que pode saldar seus débitos com o senhorio por um preço justo; e caiu nas graças do senhorio, pois obteve os lucros necessários nas transações, sem qualquer prejuízo, obtendo assim elogios por sua conduta ousada (ou como em outras traduções: "ateve-se atiladamente"). O sujeito foi do inferno ao céu! De suspeito a empreendedor sagaz, atento aos movimentos do mercado (como diríamos hoje).

O quê os fariseus não perceberam, e por isso zombaram de Jesus, é que, longe de se tratar de uma apologia à esperteza, da qual afinal os fariseus eram experts, Jesus utilizou a parábola para mostrar que tantas vezes os "filhos deste mundo", os que não aceitaram ainda em suas vidas as verdades da Boa Nova, conseguem ser mais astutos no trato com seus pares, que os "filhos da luz", ou seja, aqueles que introjetaram as verdades da Boa Nova em suas vidas, e por isso mesmo deveriam frutificar estas verdades em suas vidas, em especial na questão das riquezas, pois a avareza compete diretamente com a verdade revelada de Deus ao nível de uma potestade. Por isso Jesus afirmar ao final da parábola: 

"Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro (ou Mamom)".

Uma outra revelação de Jesus, ainda mais contundente nesta parábola, dá conta de que as riquezas deste mundo são todas de origem iníqua. Como? Agora você pegou pesado! Deve estar variando, você pensou, não?!

Pois bem. A lógica da pedagogia utilizada por Jesus está em revelar verdades espirituais utilizando-se de construções simples do dia-a-dia, de forma que as pessoas simples, desarmadas, ou como ele mesmo disse "os pobres de espírito", pudessem, pela Graça de Deus, se aperceber e apreender tais ensinamentos. e serem por isso bem-aventuradas.

Ocorreu-me, então, que quando criança, lá na velha e provinciana São Luís dos anos 70 do século passado, costumava frequentar com outros amiguinhos da rua onde morávamos a Escola Bíblica de Férias.

Criança pobre, como os outros coleguinhas, não tínhamos aonde ir nas férias, senão ficar na rua, jogando bola, brincado de xuxo, pega-pega, e tal e tal. Assim, a chamada EBF era uma distração. Ambiente descontraído; cheio de crianças nas dependências da igreja; brincávamos, pintávamos, recortávamos figurinhas bíblicas para o flanelógrafo (nosso data-show da época); cantávamos; e ouvíamos, de forma lúdica, aquelas histórinhas de um lugar tão distante que nem cabia em nossas cabecinhas, uma tal de palestina, onde Jesus andou e ensinava suas parábolas.

Nossas professoras Miriam, Áurea, Elcinete, e outras, perguntavam, e respondíamos à uma só voz: O quê é uma parábola? Resposta em côro: "É uma história terrestre com significação celeste!" Bingo! Deve ser por isso que Jesus disse que quem não se tornasse como uma criança não poderia entrar no Reino de Deus!

Então, buscando discernir a significação celeste que Jesus imprimiu nesta parábolas, constatamos o fato de que Ele contava duas histórias em uma, ao mesmo tempo, quais sejam:

Uma, diz respeito a como "os filhos deste mundo" conseguem passar a vida toda sob o engano da busca pelas riquezas materiais, ludibriando uns aos outros, e fazendo a média necessárias com tantos outros para seguir se dando bem na vida!

Ora, nós vemos isso todos os dias. Às vezes até nos perguntamos; pôxa, como que esse cara consegue que tudo dê certo pra ele; por muito menos eu já estaria preso. E tantas outras coisas poderíamos enquadrar aqui que assistimos todos os dias à nossa volta.

A outra, como já disse antes, dá conta, em primeiro lugar, da constatação por Jesus, que pode nos chocar, de que as riquezas deste mundo são de origem iníqua. E aí você pode estar se perguntando? Como assim? Ora, ninguém se iluda: para que eu acumule, alguém tem que perder!  Tudo o que eu ganho, por mais honesto que possa parecer; por mais árduo que seja o meu trabalho; será sempre uma forma de tirar de alguém para mim mesmo. E quando isso, o meu trabalho, resulta em acúmulo de riquezas, pode estar certo, muita gente perdeu, sofreu, padeceu, suou, para que eu acumulasse. É só fazer uma exame de consciência.

Mesmo que você seja um funcionário público, bem ou mal pago, seu salário é pago pelo suor de milhares que ralam dia-a-dia. Por isso, e por outras razões da época, os publicanos (funcionários públicos) eram tão odiados pelo povo no tempo de Jesus.

Você poderia pensar: bom... Jó era um homem muito rico, e tido como justo e temente a Deus! Verdade! Porém lhe digo que Jó não era justo em si mesmo, mas justificado por Deus. Lá no livro de Jó está dito como Jó oferecia continuamente holocaustos a Deus, por si e por seus filhos também, porque dizia: "pode ser que eles, ao se reunirem em suas casas, para suas festas, venham a pecar contra Deus". Assim, a visão messiânica de Cristo, representada nos sacrifícios de holocaustos oferecidos a Deus por Jó, o justificavam perante Deus.

Em segundo lugar, Jesus explicita que as riquezas (agora sabemos que todas são de origem iníqua), não nos pertence. Mesmo que voce seja daqueles que põe um adesivo na traseira do seu corsinha ou vectra, do tipo, "dado por Deus", esteja certo de uma coisa: voce agora pode dar graças à Deus por poder contribuir de forma direta com o aquecimento global, e beneficiar-se de toda a iniquidade perpetrada pela industria do petróleo. A verdadeira riqueza, a pura riqueza, só será conferida na eternidade. E aqui Ele lança o desafio aos que são seus:

Por isso, eu lhes digo: usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas.

"Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito.

Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas?

Então, fica claro, que longe de mostrar um atalho para os tabernáculos eternos através de "boas obras", Jesus está mostrando que as riquezas, o dinheiro, deve servir a propósitos nobres, mesmo que, como vimos, ele seja sempre de origem iníqua. Jesus inverte o paradigma: não se deve estar a serviço do dinheiro, mas o dinheiro deve estar a nosso serviço para o bem dos outros. "Porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas." (Carta de Paulo aos Efésios, 2: 10).

Assim, quando as riquezas desde mundo acabarem finalmente, ou seja, quando morrermos, nos confraternizaremos nos tabernáculos eternos com todos aqueles a quem socorremos em suas necessidades durante esta vida.

Por isso ainda, a advertência de Jesus no evangelho segundo São Mateus:




"Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam mas ajuntai para vós tesouros no céu, onde nem traça nem ferrugem corroem e onde ladrões não minam nem roubam: Para onde está o teu tesouro, aí estará o seu coração também. (Mateus 6:19-21)

Para concluir, fico com as palavras de Jesus para seus ouvintes fariseus que zombavam dEle:

Ele lhes disse: "Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus".
"A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus, e todos tentam forçar sua entrada nele.

É mais fácil o céu e a terra desaparecerem do que cair da Lei o menor traço. 

Parece contraditório Jesus afirmar que a Lei e os Profetas profetizaram até João Batista, mas agora vigora as boas novas do Reino de Deus, e em seguida dizer que é mais fácil desaparecerem o céu e terra que cair um só til da Lei de Deus.

Não há qualquer contradição! Pois na afirmação anterior Jesus diz que Deus conhece os corações dos homens para além do que aparentam exteriormente e suas performances de santidade. A Lei foi totalmente cumprida em Cristo, e quem se esforçar pela porta estreita que Jesus apresenta em todo o evangelho, tem acesso à esse Reino.

Só Deus conhece o coração dos homens. 

Porque o SENHOR conhece o caminho dos justos; porém o caminho dos ímpios perecerá. (Salmos 1:6).
Há um caminho que parece direito ao homem, mas o seu fim são os caminhos da morte. (Provérbios 16:15).

Este texto é o resultado do esboço de uma mensagem que preparei. Como não frequento nenhuma igreja, não terei oportunidade de proferi-la. Assim, fica aqui o registro, sabendo eu que Deus pode tudo!

Que Deus abençoe a todos!


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O pobre homem rico

Por volta do ano 70 da era cristã vivia em Jerusalém um homem muito rico. De origem nobre, tinha orgulho de pertencer a uma elite que se dizia "abençoada por D'us". Seu nome era Ygail Ben Zamir.

Seu pai, fora um homem de muitas posses. Estas incluíam esplêndidos vinhedos e olivais na região da Galileia, de onde obtinha grandes lucros com o comércio destes produtos junto às caravanas que faziam de Nazaré o ponto de encontro da rota entre Jerusalém e Damasco.

O vinho e o azeite de excelente qualidade, rendia ainda mais que o normal, pois com inteligência, perspicácia, e influência política, este era em boa parte trocado pelo olíbano, valioso incenso trazido pelas caravanas de regiões distantes, e utilizado em profusão nos rituais religiosos no Templo em Jerusalém. A família, assim, detinha o monopólio de um produto essencial, em torno do qual girava a vida religiosa de toda a Judeia e Samaria.

O velho patriarca da família consolidou uma posição invejável na vida política e religiosa do país, com livre trânsito entre o Sinédrio, a côrte de Herodes Antipas, o Tetrarca da Galiléia.

Após sua morte, seu filho Ygail Ben Zamir consolidou o seu legado, superando em muito a habilidade do pai para os negócios e influência na sociedade.

Em sua juventude, Ygail fora um jovem aplicado nos estudos e nos ensinamentos da Torá. Cumpriu todos os rituais exigidos pela lei com rigor ascético. Costumava ser generoso com os pobres, sendo por isso também muito respeitado. Era um bom homem, embora rico e poderoso.

Ygail teve três filhos: Reuben, Saadyah e Yesher; e quatro filhas: Alitzah, Batya, Chaya e Hadassah.

Era uma família feliz e próspera, embora a aparente tranquilidade conquistada  pelo poder e riqueza já mostrasse sinais de que a vida sob domínio romano, afinal, não ia tão bem.

A crescente tensão de revoltosos, principalmente os conhecidos como Zelotes, inspiravam maiores cuidados e vigilância constante, principalmente daqueles que como Ygail tinham acesso às diversas esferas do poder. A vida tornara-se, como se diria hoje em dia, num arriscado e complexo "jogo de xadrez".

Tinha ele em torno de 55 anos de idade quando irrompeu o que veio a ser chamada de "A Primeira Guerra Judáico-Romana". A vida tornou-se difícil para todos. Por todo o país podia-se ver milhares de cruzes fincadas à beira da estradas, expondo cadáveres putrefatos e moribundos em agonia final.

Toda a riqueza acumulada ao longo de gerações pela família de Ygail Ben Zamir, e todo o prestígio que gozava até entre os governantes romanos, não foram suficientes para poupá-los do sofrimento. Mesmo tendo uma posição privilegiada, Ygail e sua família, como bons judeus, sempre nutriram, mesmo que secretamente, a esperança de verem sua nação livre do jugo romano.

Os romanos, logo perceberam que aquela família abastada e bem relacionada, de há muito já nutria simpatia com os revoltosos, e não tardaram a descobrir as "ligações perigosas" que estes mantinham com o partido zelote.

Sendo fato ou pretexto, o certo é que as autoridades romanas tornaram a vida de Ygail e sua famíla insuportável. A princípio, mantendo-os sob vigilância acirrada; depois decretando prisão domiciliar; e posteriormente, destituindo-os de todos os seus bens e propriedades. Assim, em menos de quatro anos, a rica família de ascendência milenar, fora reduzida a quase nada.

Mas o pior ainda estava por vir. Jerusalém estava agora sitiada. A fome e o desespero assolavam seus habitantes, que podiam ver centenas de compatriotas crucificados nas muralhas da cidade.

No Ano 70 da era cristã, as legiões comandada pelo General Tito, filho do imperador Vespasiano romperam em definitivo as muralhas de Jerusalém, capturando a Fortaleza Antônia, e finalmente destruindo o Templo de Jerusalém.

Uma das filhas de Ygail morreu de fome durante o cerco à Cidade Santa. As outras três filhas foram enviadas à Roma como escravas e seus destinos se perderam na história. Os três filhos de Ygail Ben Zamir foram crucificados no Monte das Oliveiras junto com centenas de compatriotas.

Ygail Ben Zamir teve a vida poupada. Não por qualquer exercício de misericórdia romana, mas para que padecesse de um destino mais cruel ainda e servisse de exemplo. Já enfraquecido pelos anos de sofrimento durante o cerco à cidade; carcomido pela tristeza e agonia de assistir ao espetáculo dantesco de ver seus filhos sacrificados e as filhas ainda vivas serem levadas acorrentadas à Roma; Ygail foi levado como escravo para morrer nas pedreiras da Galiléia.

No caminho, viu a destruição do seu amado país; as cruzes fincadas aos milhares; a festa dos corvos e dos cães famintos sobre os cadáveres abandonados à esmo. Já não tinha lágrimas. Apenas sua alma chorava!

Foram dias terríveis de dôr, fome, insolação, humilhação, açoites e trabalho pesado naquela paisagem árida. As lembranças dos vinhedos e olivais eram apenas uma névoa nas suas lembranças. A fé no seu D'us ainda latejava forte nas suas orações: "Shemá Yisrael, Adonai Eloheinu, Adonai Echad".

Os dias cada vez mais longos se passaram. Até que um dia, um dia daqueles que faz a gente pressentir que será nosso último dia sobre a terra, estava ele estirado sem forças em um canto qualquer de uma gruta encravada na encosta, quando ouviu uma voz arrastada e ofegante entrar e dizer: "Shalom Aleichem!". Tentou devolver o cumprimento tão familiar, mas não teve forças para isso. De um modo estranho sentiu-se reconfortado! Aproximando-se dele um homem com mais ou menos a sua idade, arrastando uma corrente entre os tornozelos, serviu-lhe um pouco d'água que sorveu sofregamente.

O homem olhou-o com ternura e disse: - Ygail, que bom encontrá-lo! Não, não se espante de conhecê-lo. Já o vi algumas vezes antes. Sei quem és! Sua família era bem conhecida em Jerusalém, e também aqui na Galileia onde tinha propriedades.

- Eu sou dessa região mesmo. Meu pai era grego, e minha mãe judia. Tu bem sabes que isso é um tanto comum aqui no norte. Meu nome é Cléopas. Sei que estamos numa situação sem saída. Escravos para sempre! E não vamos durar muito tempo mesmo! Mas sempre há tempo para fazermos as escolhas certas em nossa vida pessoal. Deus não abandona aqueles a quem ama!

Ygail então falou quase num sussuro: - Invejo a tua esperança! Não que tenha perdido a minha fé e abandonado meu D'us, mas vejo que falas de modo diferente. Que tipo de fé tens afinal para estar tão tranquilo nessa situação em que estamos?

- Não! Não que esteja tranquilo. Sofro como qualquer outro aqui. Mas tenho uma esperança eterna que não pode ser encoberta por essa situação de trevas que vivemos. - respondeu Cléopas.

- Esperança eterna?! - exclamou Ygail. És seguidor de alguma seita?! 

- Não! - continuou Cléopas. - Sigo a fé do nosso Pai Avraham. A mesma do Rei David. Só que pude compreender a Verdade quando fui confrontado com ela há muito tempo atrás. 

- Como assim? - retrucou Ygail.

- Bom. Vou explicar! Sigo o Caminho que nos ensinou o Messias Yeshua Ben Youssef! Talvez te lembres! Ele foi crucificado faz quase trinta anos. Teu pai era muito influente no Sinédrio, e pode ser que tenha te contado como as coisas aconteceram na época. - falou Cléopas pausadamente.

- Ah! Sim! Falas daquele rabino de Nazaré que se proclamou o Ungido de D'us. Então és seguidor daquela seita do Nazareno! - Exclamou um tanto perplexo Ygail.

- Não, amigo. - respondeu Cléopas. - Não é seita! É a nossa verdadeira fé! Só que não foi compreendida pela maioria do povo, e o Sinédrio, por temer o poder romano, acusou nosso Messias de blasfêmia, levando à morte na cruz!

- Faz tanto tempo! - esforçou-se Ygail puxando fios de sua memória cansada. - Não foi Ele quem disse que era o Filho de D'us? E por isso o Sinédrio o acusou de blasfêmia?

- Sim! Ele disse. Sim. Ele é o Filho de Deus! - respondeu Cléopas.

- Como "é" o Filho de Deus? Ele não morreu crucificado - esforçou-se Ygail para entender lógica dessa afirmação.

- Sim! Ele é de fato o Filho de Deus - continuou Cléopas. - Na época, não entendíamos direito isso, mas algo nÊle nos fazia crer que era assim mesmo. Muitas vezes Ele nos avisou que era necessário que Ele morresse e ressuscitasse. O que de fato aconteceu. No terceiro dia após sua morte Ele ressuscitou, e por quarenta dias apareceu aos seus seguidores. Um deles, chamado Tomé, até tocou nas sua chagas deixadas pelo pregos com que o pregaram na cruz!

- Bom! Para ressuscitar dos mortos só sendo o Filho de D'us mesmo! - Assentiu Ygail meneando a cabeça. - É uma história muito louca e carece de provas. Tem mais: com quê argumento falas que essa é a nossa verdadeira fé? Será que o Sinédrio não saberia se fosse verdade?

- O Sinédrio sabia, caro amigo - retrucou Cléopas. - Por isso resolveu deliberadamente matá-lo. Confessar publicamente que o nazareno era o Cristo de Deus representava uma ruptura que eles do Sinédrio não poderiam suportar por causa de suas ambições pessoais, do sistema religioso estabelecido, da ordem das coisas, entende? Precisavas ver quando muito dos fariseus viram quando o Mestre ressuscitou dos mortos a Seu amigo Lázaro que já estava morto havia quatro dias. Ouvimos os seus cochichos: diziam entre si que aquele fora um sinal definitivo ao qual não poderiam negar, e então resolveram matá-lo.


- Sim, Ygail, Ele é o Cristo prometido de Deus. - Continuou Cléopas. - Na língua grega o chamamos assim, quer dizer, o Ungido. Nosso Pai Avraham já possuía essa Revelação Divina. Quando estava para sacrificar seu filho Yitzhak, foi impedido pelo SENHOR e ouviu dÊle a promessa de que como não negou seu único filho, ele seria abençoado, e sua descendência seria incontável com as estrelas e como os grãos de areia, e nele, Avraham, seriam abençoadas todas as nações da Terra. Tu bem sabes disso, não é mesmo? 


- O que te ficou encoberto, caro amigo, - continuou Cléopas -  é que a benção de Avraham se estende a todas a nações da Terra, não porque a Nação de Yisrael terá o domínio do mundo. A promessa, de fato, é que, em Avraham, qualquer pessoa da Terra é abençoada com a fé em Deus. Todos podem ser feitos filhos de Avraham pela fé, e todos podem alcançar a Salvação Eterna!

- Lembras o que escreveu o Rei David em seus Salmos? - continuou. - Ele escreveu: "E disse o SENHOR ao meu SENHOR, assenta-te à minha direita até que ponha teus inimigo por escabelo dos Teus pés". David já havia entendido por revelação divina a visão messiânica que agora se cumpriu em Yeshua. O SENHOR assentado à direita do SENHOR, é o Cristo de Deus, Seu Filho Ungido.


Ygail, já sem forças, sentia seu peito aquecer com aquelas palavras. Ficou em silêncio por muito tempo remoendo aquelas inquietações que lhe corroíam a mente. Cléopas também calou-se; apenas murmurava baixinho consigo mesmo. Vez em quando ouvia um soluço  baixinho vindo do seu amigo.


Depois de um tempo, Cléopas falou: - Ygail! Lembras agora?! Eu te vi certa vez quando eras ainda bem moço. Eu estava lá quando te vi conversando com o Rabi Yeshua Ben Youssef. Lembras?!


Ygail irrompeu ao prantos, soluçando...


Lembro! - disse. Agora lembro!


E continuou: 


- Durante anos sufoquei essa lembrança! No início tentava esquecer o olhar do Rabi e não conseguia. Com o tempo consegui bloquear isso da memória, e depois de tantos anos agora tudo me voltou à lembrança.


Ygail então lembrou-se daqueles anos dourados em que viajava constantemente com seu pai pelo país visitando as propriedades; fazendo negócios; coletando a renda da produção e do comércio; aprendendo o ofício de administrar as riqueza da família.


Lembrou-se do cheiro dos olivais; do aroma dos vinhos que amadureciam nas adegas encravadas nas rochas; dos banhos nos remansos do Jordão; do tempo em que o mundo lhe parecia a perfeita criação de D'us.


Lembrou-se também que de vez em quando via uma multidão assentada na relva ouvido um jovem rapaz, que devia ter no máximo uns trinta anos. Lembra do que dizia desse rapaz: que ele curava os doentes; devolvia a vista aos cegos; fazia andar aos coxos e aleijados; e até ouviu uma história que ele tinha ressuscitando o filho único de uma viúva bem pobrezinha lá pras bandas de Cafarnaum.


Lembrou-se de um dia em especial em que estava descansando debaixo de uma figueira enquanto seu pai cuidava de negócios, e viu o Rabi Galileu passar bem perto e olhar para ele.


Lembrou-se que depois de um tempo, aproximou-se de onde estavam aquelas pessoas em volta do Rabi, e sentiu um ímpeto de ir conversar com ele. Ficou um tempo ali parado, como que criando coragem. Então decidido, chegou mais perto, e como chamasse a atenção, pois estava ricamente vestido no meio daquele gente tão simples, as pessoas se afastaram com cautela lhe dando passagem.


Imaginou que precisava ter uma pergunta bem objetiva a fazer, afinal era um rapaz bem instruído. Então, como que se lhe soltasse a língua de repente, se viu perguntando:


- Bom Mestre! Que farei para herdar a vida eterna? - a pergunta saiu de chofre.


- Por que me chamas Bom? - respondeu Yeshua.- Só Deus é bom! - Continuou.


Ygail lembrou-se que sentira um tremor como que no fundo do coração. Lembrou-se que pensou: "Ele está me relativizando... como se minhas certezas não tivessem nada de absolutas. Talvez esteja querendo me dizer que se o acho Bom, e Bom só Deus é, é porque o reconheço como Filho de Deus. Ele traçou uma linha, certamente".


Sabes o mandamentos? - continuou o Rabino.- Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho contra o teu próximo; honra o teu pai e a tua mãe; e amarás o teu próximo como a ti mesmo?


- Ah!... Agora Ele falou minha língua - pensou consigo mesmo.


- Claro, Rabi! - respondeu. - Tudo isso tenho observado desde a minha mocidade!


Ygail lembrou-se de como naquele momento a sua mente rapidamente percorreu toda sua trajetória.  E de como se sentia orgulhoso de ser uma pessoa bem quista, tida como correta e honesta em suas relações pessoais e comerciais; de como sempre acompanhará seu pai nos rituais do Templo em Jerusalém; e como participava dos trabalhos nas sinagogas quando em viajem pelo interior; de como ele e o pai ajudavam os necessitados; dizimavam os produtos de suas vinhais e olivais; e de como guardavam religiosamente o Shabat


Aí viu como o Rabi olhou ternamente para ele com um olhar profundo, e proferiu aquelas palavras que o deixariam perturbado por muitos anos.


- Então! - disse o Rabi. - Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, e depois vem, e segue-me!


Ygail lembrou-se de como ficou estarrecido com aquelas palavras. Não esperava por isso. Fora até ali com a intenção de conhecer de perto o Rabi Yeshua de quem tanto ouvira falar, e ele mesmo já tinha presenciado alguns dos seus milagres. Não! Por quê? Não era suficiente ser o rapaz tão bom que ele achava ser?!


- "Como vou chegar junto do meu pai e dizer: pai quero a parte que me cabe na tua herança, porque vou vendê-la, dar tudo aos pobres, e vou seguir o Rabi Yeshua Ben Youssef, porque Ele é o Messias Prometido, O Filho de D'us. Como?"


Sem mais perguntar nada; implodindo dentro de si mesmo; e com uma tristeza que nunca sentira antes; Ygail lembrou-se de que se retirou devagarinho, como se tateasse uma caminho oculto que lhe tirasse dali.


Ainda remoía-se naquelas lembranças, quando ouviu de novo a voz de Cléopas ao seu lado. Sentindo-se como se acordasse de um transe, soluçou baixinho e fitou os olhos no companheiro que falava.


- Ygail. -  disse Cléopas. - Sei que foi um longo caminho até aqui. Mas deixa eu te dizer mais umas coisas. Depois que saístes triste aquele dia, o Mestre comentou também com uma profunda melancolia em Sua voz. Ele disse:


- Quão difícil é para um rico entrar no Reino dos Céus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que isso acontecer.


- Ficamos todos atônitos e então um dos nossos perguntou: "Quem Senhor, pode então ser salvo?"


- O Mestre olhou fixamente nos nossos olhos e falou de um jeito bem direto:


- Aos homens isso é impossível, mas a Deus tudo é possível.


Para nós, aquilo também foi um choque. - continuou Cléopas. - Depois de um tempo, em outra ocasião, o Rabi olhando para nós todos, perguntou assim de repente:


- Quem dizem os homens que eu Sou? Ao que uns disseram: que tu és Elias; e outros, que és João Batista; ou que és algum dos profetas. Ele, então, rebatendo, falou: E vós, quem dizeis que sou?


- E aí, Cefas, um dos nossos disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo.


- Então o Mestre, fitando à Cefas, disse: Bem-aventurado és, porque não foi nem carne nem sangue que te revelou isso, mas o meu Pai que está nos céus!


Pudemos, então, entender - continuou Cléopas - que de fato nenhum homem por si só; seja por seu intelecto; por sua herança cultural; ou sabedoria própria, é capaz de compreender e aceitar que o Cristo é o Filho de Deus.


- É! - falou Ygail. -  Agora eu entendo. Segui sempre os ensinamentos da religião. Procurava fazer tudo direitinho. Sempre fui muito atento ao estudo da Torá. E nunca compreendi que o Cristo de Deus, Yeshua Ben Youssef, era o cumprimento de todas as profecias.


- Fico pensando agora como teria sido diferente se naquela época eu tivesse seguindo a sua ordem de vender tudo, dar os meus bens aos pobres, e segui-lo. Talvez, ou é mesmo certo, Ele soubesse de tudo o que iria acontecer comigo. Talvez, se tivesse Lhe seguido, eu não estivesse aqui, nessa situação de morte, sofrimento e humilhação.


Ygail - interrompeu gentilmente Cléopas. - Conheci outras pessoas que estiveram em boa situação e depois, por uma tragédia qualquer, doenças, acidentes, etc, se sentiram assim como estás te sentindo. Não adianta ficar remoendo o passado e retroalimentando sentimentos de culpa e frustração. Ninguem, senão Deus, é capaz de saber como teria sido assim e assim.


- O importante agora é o que tu vais fazer neste momento. Na minha língua, o grego, temos uma palavra: "metanoia". Voces traduziriam mais ou menos como "arrependimento". Significa, literalmente, "mudança de mente".



- O que precisas agora, é, percebendo que vivestes todo esse tempo sob o engano da religião; e que o Cristo Yeshua é realmente o Ungido da Promessa; o que tens a fazer é buscar de todo o coração a metanoia, e aceitar em tua vida a Boa Nova da Salvação Eterna.


Enquanto Cléopas ainda falava, entrou de repente no recinto, um soldado romano segurando um archote numa das mãos, e iluminando languidamente o ambiente.


Ygail assustou-se tentando endireitar-se sentado ao chão. Mas Cléopas o tranquilizou dizendo:


- Calma, amigo. Este é Fídio Juvencius. Ele é romano, sim. Mas é um dos nossos, um dos seguidores do Caminho. O Caminho do Ungido de Deus.


- Foi graças à ele que eu pude entrar aqui para te ver, e assim trazer-te um pouco de consolo.


Ygail, olhando atentamente para o soldado romano, imaginou como estaria suas filhas feitas escravas e levadas à Roma. Viu em sua mente seus três amados filhos crucificados no Monte das Oliveiras. Não sabia o que sentia ao certo. Mas não era ódio. Afinal aquele soldado romano era um seguidor do Cristo Yeshua. Logo ele, que sequer era um filho de Avraham.


Ai lembrou-se da benção de Deus ao Avraham: "Em ti serão benditas todas as nações da Terra". Então era verdade! No Cristo se cumpria as Promessas das Escrituras.


Neste momento, sentindo que já não tinha forças para continuar vivendo, tocou a mão de Fídio Juvencius, puxou-o para perto de si, e olhando de lado para Cléopas, balbuciou: meus irmãos, era eu era cego, mas agora vejo. Obrigado Yeshua!


Levantou pela última vez os olhos. Fitou o teto da caverna bruxuleado pela luz do archote nas mão de Fídio, e falou com um leve sorriso no rosto:


"Baruch Adonai ki shemá a-khol tachanunai"
"Bendito o Senhor que ouve todas as nossas súplicas"


Ygail já não estava ali. Seus amigos o sepultaram numa pequena gruta encravada na montanha.









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